Walter Lídio: Tirar a Dilma não resolve

RS tenta compensar declínio por meio de um culto idílico do passado, diz executivo

O Rio Grande do Sul está preso a um passado idílico, marcado por uma história de lutas e de muitas tradições, como uma forma compensatória de lidar com a perda de importância política e econômica do Estado no cenário nacional. Há um permanente olhar para o passado, numa tentativa de manter a autoestima machucada, que é acompanhado por um espírito belicoso e binário, que vem impedindo a construção de convergências para fazer o Estado avançar. A avaliação é do engenheiro gaúcho Walter Lídio Nunes, diretor presidente da Celulose Riograndense, que passou mais de 30 anos trabalhando fora do Rio Grande do Sul e, a partir dessa experiência, desenvolveu uma visão crítica sobre o espírito que, para ele, atravessa toda a sociedade gaúcha.

Na avaliação do executivo, o culto idílico de um passado guerreiro e a eterna divisão entre chimangos e maragatos prejudicam a construção de soluções para os problemas do Estado. “Nós não reelegemos governador, por exemplo. Quando um novo governador assume, há uma negação daquilo que o governo anterior fez. Neste posicionamento binário, que nega aquilo que veio antes, acabamos sempre procurando culpados. Em gestão ou em qualquer relacionamento da sociedade, procurar o culpado nos afasta de encontrar as soluções”. Isso vale para o Rio Grande do Sul e também para o brasil, acrescenta: “Tem gente querendo tirar a Dilma. Isso não resolve nada para o país. A discussão é outra. Temos que discutir o modelo de país que temos”.
Walter Lídio
Walter Lídio, da Celulose Riograndense. Foto: Guilherme Santos
Sul21: O senhor desenvolveu uma visão crítica sobre uma cultura institucional e identitária que teria se cristalizado aqui no Rio Grande do Sul. Como essa visão se desenvolveu?
Walter Lídio Nunes: Eu saí do Rio Grande do Sul quando tinha 25 anos e fui trabalhar e viver em outros estados como Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro e, principalmente, Espírito Santo, onde tive um convívio mais direto com a sociedade e o setor público. Tenho alguns colegas que fizeram roteiros similares e, curiosamente, chegamos a conclusões muito parecidas sobre a cultura dominante no Rio Grande do Sul. A nossa história foi formada de muitas lutas que começaram lá com as Missões, passaram pela Revolução Farroupilha e se estenderam ao longo dos anos, com sucessivas situações de conflito. O mundo, aqui no Rio Grande do Sul, se divide em dois lados. Isso estabelece uma forma de agir belicosa que tende muito ao conflito. Essa posição adquire um caráter um pouco sectário. Conviver com posições divergentes faz parte do enriquecimento de um processo de tomada de decisões. Mas aqui no Estado não há uma cultura de se trabalhar as divergências. A divergência aqui é muito marcadamente binária, é sim ou não, Grêmio ou Internacional, chimangos ou maragatos, situação ou oposição. Como temos um caráter guerreiro, recuar de uma dessas posições é mais ou menos visto como recuar da minha trincheira e abandonar a luta.

Em outros estados não há esse caráter de trincheira e existe maior abertura para ouvir outras posições e, eventualmente, reformular o que você pensava inicialmente. No Rio Grande do Sul, se você afirma uma coisa e depois evolui para outra posição que possa negar parcial ou totalmente aquela posição inicial, isso é caracterizado como uma falta de personalidade, de coerência, etc. Com esse tipo de postura, a nossa capacidade de construir convergências fica muito prejudicada.

O Rio Grande do Sul já foi uma referência no contexto da Federação brasileira e essa posição vem sendo perdida para outros estados que eram considerados inferiores do ponto de vista econômico. Em função disso, há uma tentativa de manter a nossa autoestima por meio de um resgate do passado. Aí intensificamos a nossa relação com a nossa história, nossa tradição e costumes. Não há nada de errado em querer preservar a própria cultura, bem pelo contrário. No entanto, muitas vezes, fazemos isso com um caráter quase auto compensatório, numa reação à perda de estima pela menor evolução em comparação a outros estados. Ficamos afirmando nossa história, nossa tradição, dizemos que aqui no Rio Grande do Sul tudo é diferente e que aqui as coisas têm que ser feitas desta ou daquela maneira. É como se disséssemos: nós caímos no ranking, mas continuamos sendo diferenciados.

Como é que essa postura se traduz em termos práticos? Poderia dar alguns exemplos?
Nós não reelegemos governador, por exemplo. Quando um novo governador assume, há uma negação daquilo que o governo anterior fez. Qualquer governador faz coisas boas, coisas certas e erradas. Isso é da vida de qualquer pessoa. Nós fazemos o certo, o mais ou menos e o errado. Em outros estados, testemunhei uma postura diferente neste tipo de situação, procurando dar continuidade ao bom, aperfeiçoar o que está mais ou menos e desfazer aquilo que, efetivamente, não está agregando valor. Aqui a postura dominante é muito mais a de negar a situação anterior do que trabalhar na direção de um aperfeiçoamento da governança pública, conduzindo a um eterno recomeço.

Também podemos aprender com aquilo que não foi bem feito. Eu sempre digo que o erro é uma grande matéria prima para o futuro e para o aperfeiçoamento. Muitas vezes, eu posso ganhar mais com o erro, se souber utilizá-lo, do que com uma atitude certa. Neste posicionamento binário, que nega aquilo que veio antes, acabamos sempre procurando culpados. Em gestão ou em qualquer relacionamento da sociedade, procurar o culpado nos afasta de encontrar as soluções. O que acontece com esse tipo de postura é que, em cada tema, você acaba armando outras pessoas que ficam na defensiva. No momento em que você é agredido, você se defende. E há quem diga que a melhor defesa é o ataque. Ou seja, ficamos envolvidos em uma situação de conflito e não de construção. Em outros estados onde trabalhei, esse caráter de buscar o culpado não tem a mesma intensidade que tem aqui.

Quais experiências o senhor vivenciou que caminham na direção contrária desta de “buscar o culpado”?
Numa sociedade complexa e diversificada como a que vivemos, precisamos buscar convergências. É preciso reunir e ouvir as diferentes forças que existem e procurar a solução que mobiliza favoravelmente a maioria. Isso implica fazer concessões. Não é a posição absoluta de cada um que determina a direção, mas sim uma composição entre as diferentes posições em jogo. Com esse tipo de postura se consegue ir para a frente. Pode não ser exatamente como eu quero, mas consigo avançar na direção que estou pretendendo. Aqui no Rio Grande do Sul, há uma dificuldade para fazer isso.

Sempre cito um exemplo da minha experiência de vida. Já entrei em reuniões em outros estados para discutir temas que envolviam questões político-sociais com 30% de convergência e 70% de divergência. Começávamos pelas convergências e íamos superando as divergências, chegando a um acordo, onde as pessoas saíam comprometidas com uma convergência. No Rio Grande do Sul, vou estigmatizar um pouco para ilustrar o que ocorre, a gente entra numa reunião com 99% de convergência e 1% de divergência. Aí eu me agarro neste 1% de discordância e começo o debate daí.

A discussão normalmente tende a iniciar pela divergência. Quem começa uma reunião pela divergência já estabelece uma atitude reativa e conflitiva nas relações psicossociais. Muitas vezes, a gente diverge quando está todo mundo de acordo.

Outra coisa que a gente vê na cultura gaúcha, que também tem a ver com a nossa história e com as nossas tradições, é que, quando alguém propõe fazer alguma coisa nova, a primeira coisa que se ouve é alguém justificando durante duas horas porque fizemos isso dessa forma até aqui. Em uma sociedade onde as mudanças ocorrem com uma extrema velocidade, se eu cheguei até aqui foi por alguma razão. Agora, se eu tenho possibilidade de mudar por que não mudar? Isso não condena o que fiz até aqui.

Essa questão da autodefesa do passado, daquilo que eu fiz até aquele momento, assume tal dimensão que, muitas vezes, se considera uma desonra ter que fazer algo novo, talvez envolvendo uma preocupação de se defender essa trajetória percorrida até aqui. A discussão se concentra, assim, muito mais na defesa desse passado do que nas oportunidades que o novo pode oferecer. O novo não condena o passado nem o presente. Ele é uma oferta para o futuro. Quanto mais uma sociedade tiver essa capacidade de inovar, de mudar de posições, evidentemente que não de uma maneira maluca, maior será sua capacidade de se adaptar e de vivenciar o mundo com mais ganhos.

O senhor consegue identificar a presença desses traços culturais e comportamentais também entre o setor empresarial do Rio Grande do Sul e no modo como esse setor conduz seus negócios?
Essa postura se estende a todos os segmentos da sociedade, incluindo o empresarial. Um exemplo disso pode ser visto quando consideramos a conjuntura das entidades que, potencialmente, têm condições sinérgicas. Elas não se unem no sentido de abraçar uma proposta ou uma causa. Muitas vezes quando há uma convergência, onde o nome individual desta ou daquela entidade pode desaparecer em função de uma causa maior, há uma preocupação com a manutenção da identidade própria. Isso eu noto nas instituições de modo geral. Elas não se subordinam a uma causa comum para não perder o seu nome, a sua identidade. Há um sentimento de orgulho, de individualidade institucional a ser preservada. Elas não se abandonam a uma causa que pode ser superior à entidade em si. E, normalmente, em discussões suprassociais, há a necessidade de se compor em uma esfera maior, onde ocorre uma agregação de identidades. Isso significa que eu tenho que renunciar à minha individualidade em favor de um coletivo. Não se trata de anular a própria individualidade, mas ela não pode se sobrepor ao coletivo. Esse culto da personalidade institucional é muito forte aqui no Rio Grande do Sul.

Ainda dentro dessa característica, houve uma intensificação da expressão das corporações em todos os setores. Elas são muito fortes, representativas e historicamente muito consistentes em comparação ao que vemos em outros estados. Muitas vezes, em discussões sociais, elas põem a sua prioridade acima da prioridade de uma composição conjunta. Esse conjunto implica respeitar o caráter individual de cada uma, mas buscar um equilíbrio entre as várias forças. Eu não posso, por exemplo, como empreendedor, dizer que quero o melhor de tudo. Não quero pagar imposto, não quero fazer isso ou aquilo. Não vai ter sociedade assim. Tampouco haverá se um setor quiser levar todos os benefícios que outros setores não têm. Também não pode ser assim. Portanto, há necessidade de se construir um equilíbrio. Eu não posso querer me impor à sociedade, pela minha força corporativa. E essa imposição, às vezes, ocorre até por omissão da própria sociedade.

Essa é a grande lógica social e política que, no meu entendimento, tem que ser revista aqui no Estado. Para construir esse espírito de convergência tem que haver um certo senso de abandono de algumas posições. Isso vale não para um ou para dois, mas todos. Não é um processo simples. Neste contexto histórico do Rio Grande do Sul que estamos considerando, há um componente ideológico muito marcado à esquerda e à direita, que vem acompanhado por cristalização de posições. Certas decisões, assim, são tomadas mais segundo a minha convicção ideológica do que pelo equilíbrio de uma composição social e política, que é o que mais interessa a sociedade. Em todas as ideologias há bons dispositivos e pontos que podem ser discutidos e aproveitados para a busca de um equilíbrio que aponte para a melhor direção social.

Uma das recomendações implícitas em seu diagnóstico parece ser que o Rio Grande do Sul precisa de um bom divã…
Veja bem, eu não estou aqui criticando a história de lutas e a rica tradição do Estado. Mas há características que, considerando o atual momento em que vivemos, mais atrapalham que ajuda. Talvez essas mesmas características, há cerca de 30 anos, fossem até positivas. Hoje me parece que não são. Com essa postura de ir sempre em busca de culpados a gente deixa de discutir os fatores estruturantes das crises. Como se trocar o nome das pessoas pudesse resolver crises. Há uma discussão mais profunda que deve ser feita. Isso vale para o Brasil e, de um modo mais intenso, para o Rio Grande do Sul. Tem gente querendo tirar a Dilma. Isso não resolve nada para o país. A discussão é outra. Temos que discutir o modelo de país que temos. Mas precisamos ter um ambiente para uma discussão qualificada.

Sul21: Aqui no Rio Grande do Sul, considerando os últimos anos, o senhor vê algum avanço na direção desse espírito de convergência que defende?
Walter Lídio Nunes: A sociedade, quando não percebe que tem um problema, não resolve problema nenhum. O primeiro capital que a gente precisa ter quando vai tratar de alguma situação é justamente o entendimento dessa situação. Se há esse entendimento, há a possibilidade de mobilizar em torno de uma proposta, de uma agenda. Por onde eu passei, onde houve mudanças, havia uma crise antes. Esse momento que o Brasil vive hoje, por exemplo, é um problema e uma oportunidade ao mesmo tempo.

A diferença entre o problema e a oportunidade é como a gente se posiciona frente a isso. O que tem acontecido na maior parte das vezes em nossa história é que a gente opta por fazer maquiagens, por escolher situações de contorno. Mas chega um momento em que as maquiagens não dão mais conta e as crises eclodem. A maturidade da sociedade é medida pelo modo que ela se posiciona para tratar dessa situação e fazer da crise uma construção.

Os problemas que enfrentamos hoje não começaram no dia de ontem, mas são resultado de um processo. Quando eu personalizo processos, que são construídos ao longo de muitos anos envolvendo múltiplos fatores, e fico buscando culpados, não encontro as soluções. Isso vale para qualquer situação. Essa postura não constrói nada e não beneficia ninguém.

Marco Weissheimer, Sul21

 
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